quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Te vejo Poeta


Te vejo, Poeta
quando nasce o dia
e no fim do dia, quando a noite vem
Te vejo, Poeta
na flor escondida,
no vento que instiga mais um temporal
Te vejo, Poeta
no andar das pessoas,
nessas coisas boas que a vida me dá
Te vejo, Poeta
na velha amizade,
na imensa saudade que trago de lá

Contudo um poema, Tua obra de arte
destaca-se à parte numa cruz vulgar
Custando o suplício de Teu Filho amado
Mais alta expressão do ato de amar


João Alexandre e Guilherme Kerr

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Poema em Linha Reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paci~encia pra tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos- mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa


terça-feira, 28 de agosto de 2007

Vírgula


quem tem posto o rosto perto d'água, não me tem visto diretamente (como se isso fosse possível aos humanos!).

É que tenho trabalhado muito esses dias e não tenho conseguido parar pra escrever (produzir) coisa alguma.

Sim, é uma vírgula no blog!

Enquanto essa pausa rápida (espero) se estende, vou pondo outros reflexos na água, outros rostos, que também revelam outros traços (vírgulas, talvez) de mim. São textos que me emocionam sempre...

Até o fim da pausa...
P.S.: Vocês perceberam a quantidade de parênteses que eu pus no texto?! Ele bem que poderia se chamar PARÊNTESES em vez de VÍRGULA, né?! rsss...

Passagem das Horas

Não sei sentir, não sei ser humano,
não sei conviver de dentro da alma triste, com os homens,
meus irmãos na terra.
Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático, cotidiano, nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco, não sei qual, e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente.
Mas para toda gente isso foi normal e instintivo.
Para mim sempre foi a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos,
Seja como for... a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,
a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
a dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
de sair para fora de todas as casas,
de todas as lógicas, de todas as sacadas
e ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.

Álvaro de Campos

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Onde está Deus?


Onde está Deus?
Está nos guetos do mundo, contemplando a coragem dos justos.

Está no povo oprimido pela fome, observando a ousadia de viver destes.

Está na mãe solteira trabalhando o dia inteiro e encontrando tempo pra brincar com seu filho a noite.

Está no pai de familia assalariado que compra, com muito sacrificio, uma barra de chocolate pra ter o prazer de ver o sorriso dos filhos.

Está no bêbado que pede socorro numa sala de Alcoolicos Anônimos.

Está no jovem drogado que pede uma luz sem esperança de vê-la.

Onde está Deus?

Não está na igreja se esta parece não carecer de sua presença por se achar santa demais.

Não está nos corações orgulhosos mas, nos quebrantados, espatifados pela vida e pelo pecado.

Deus se faz presente na vida destes, aproxima-se na ânsia de ser notado.

Deus é um médico da alma, e como é comum nas batalhas, aproxima-se dos feridos para que estes possam sobreviver.


Eduardo Cruz

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Vilarejo


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão

Terra de heróis
Lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal

Peitos fartos
Filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina... Shangrilá

Vem andar e voa.

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção
Tem um verdadeiro amor para quando você for!


Marisa Monte, Pedro Baby, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes


Sempre que ouço essa canção, meu coração se enche de variados sentimentos (e essa é a riqueza da obra artística!). Um deles é a saudade que tenho da Plenitude, do Amor Perfeito, do Céu; outro é a vontade em forma de oração para que a descrição do "vilarejo" seja também a imagem da Igreja de Cristo e do mundo todo como sua extensão: um espaço de amor, compreensão, tolerância e beleza, onde todos possam andar e voar como águias na direção do Sol! O vídeo talvez revele com mais exatidão a mensagem de esperança dessa canção para um mundo tão sêco de Amor e Verdade: http://www.youtube.com/watch?v=-g83_ZRGM48

sábado, 11 de agosto de 2007

Deus é Pai (homenagem aos pais no seu dia)


Quando o sol ainda não havia cessado seu brilho,
Quando a tarde engolia aos poucos
As cores do dia e despejava sobre a terra
Os primeiros retalhos de sombra
Eu vi que Deus veio assentar-se
Perto do fogão de lenha da minha casa
Chegou sem alarde, retirou o chapéu da cabeça
E buscou um copo de água no pote de barro
Que ficava num lugar de sombra constante.
Ele tinha feições de homem feliz, realizado
Parecia imerso na alegria que é própria
De quem cumpriu a sina do dia e que agora
Recolhe a alegria cotidiana que lhe cabe.
Eu o olhava e pensava:
Como é bom ter Deus dentro de casa!
Como é bom viver essa hora da vida
Em que tenho direito de ter um Deus só pra mim.
Cair nos seus braços, bagunçar-lhe os cabelos,
Puxar a caneta do seu bolso
E pedir que ele desenhasse um relógio
Bem bonito no meu braço
Mas aquele homem não era Deus,
Aquele homem era meu pai
E foi assim que eu descobri
Que meu pai com o seu jeito finito de ser Deus
Revela-me Deus com seu
Jeito infinito de ser Pai.


Pe. Fábio de Melo

Refletindo Educação 1 (Pais e Filhos)



Marina e Léo





Uma querida amiga, a quem vou referir-me pelo fictício nome Marina, ia conversando comigo a respeito de sua preocupação com Léo (outro pseudônimo), seu filho, enquanto voltávamos do trabalho.

Léo, dizia ela, andava muito rebelde nos últimos tempos. Sim, eram os anos rebeldes da adolescência. Aliás, em qual faixa etária começa realmente esse período, heim?! Minha mãe me diz que nunca passou por "esse negócio de adolescência", simplesmente porque esse termo nem existia no universo vocabular dos meus avós ou de seus contemporâneos. Há uns anos atrás, quando completei minhas doze primaveras, disseram-me que não era mais uma criança, que estava "virando rapaz", um adolescente. Hoje, já chamam essa idade de pré-adolescência. E no conviver diário com meus alunos, já percebo características pré-adolescentes nos meninos e meninas de nove... dez anos, em quem vejo uma erotização precoce tal que, nessa idade, eles já querem me dar aulas de como conquistar umas "gatinhas". Adoro trocar idéias com esses conquistadorezinhos durante o intervalo. Confesso que tenho reaprendido um "montão" de coisas, rsrsrs.

Mas, voltando ao Léo, o rapaz que sempre fora um aluno responsável com suas tarefas escolares, agora assistia prova após prova, suas notas escorrerem pelo ralo de tão baixas que estavam. Sua turminha era esquisitíssima, comentava Marina, uma "galera" cheia de balangandãs pós-modernos de deixar Carmem Miranda "passada": piercings, colares pesadíssimos ( alguns mais pareciam coleiras de pitbull ), tatoos espalhadas pelo corpo...

O que mais deixou sua mãe intrigada foi que Léo certa vez apareceu "altas horas" da noite em casa com os olhos pintados. Ou eram os cílios? Não. Sombra nos olhos! Ah, não lembro como Marina me falou exatamente. Entendo muito pouco de maquiagem, mas foi algo assim... de natureza estético-ocular.

Marina ficou perturbada. Pensou: Será que o Léo é gay? Alguns dos amigos dele já deu pra ver que são. Ainda continuou "viajando"... Lembrou-se de uma vez em que ele lhe perguntou: Mãe, se eu fosse homossexual, a senhora me amaria do mesmo jeito?

Foi nesse momento que fitei os olhos no rosto de Marina com espanto e curiosidade querendo saber qual sua resposta àquela questão tão sincera. Ela, pra minha surpresa, disse que nada mudaria, pois o amor que sentia por Léo estava muito além disso. Contudo, disse ela para o filho, que iria interceder muito por ele, pois julgava não ser essa a vontade de Deus para o rapaz.

Independente da posição de Marina sobre a homossexualidade ser ou não o própósito divino para seu filho, fiquei surpreso pela abertura franca, e portanto, sensível que existia entre Marina e Léo, mãe e filho, experiência e juventude. Vinte anos de distância transformados em nada diante da proximidade dos dois naquele diálogo.

Pasmei ainda mais quando Marina disse que chegou a perguntar "na bucha" mesmo se o filho era gay, e Léo respondeu como quem está indeciso entre comer um sorvete de morango ou chocolate. Não sei mãe, disse ele, ainda não senti tesão ao ver ou estar perto de uma mulher, tampouco me sinto atraído por homem algum... minha sexualidade ainda é muito "minha".

Meu espanto aumentou quando Marina me pediu um conselho, uma opinião. Mais que isso: o que eu poderia dizer-lhe que a fizesse lidar melhor com aquela situação.

Sorri, ainda bobo, e brinquei: Como você ousa, minha amiga, me pedir para orientá-la, se seu relacionamento com seu filho é tão amorosamente escancarado e sem máscaras? Como você pode se sentir confusa em meio a clareza com que vocês se colocam um para o outro? Com que tipo de esnobismo me pede algo assim, sabendo que existem milhares de famílias que esticam as filas em consultórios de psicanálise, lotam salões de terapias de grupo, esgotam títulos de auto-ajuda nas livrarias por causa do abismo de gerações entre pais e filhos? Conflitos que talvez fossem resolvidos com uma única palavra de compreensão. Ah, se conhecêssemos o altíssimo valor das palavras que revelam o profundo da alma ao nosso Semelhante.

A verdade é que insistimos em não crescer na área dos relacionamentos. A sociedade capitalista é cada vez mais avessa a compromissos afetivos em nossas relações. Continuamos fechando o vidro do carro e trancando-nos na frieza do ar condicionado, pondo grades nas portas e janelas de nossas casas e corações, cultivando o que o poeta chama de "superficial, risos polidos, relacionamentos de alô". Permanecemos evitando abraços na infeliz tentativa de parecermos fortes e invulneráveis.

Quando penso na incomensurável fatia da vida que deixei de saborear por causa do medo de me mostrar, de "dar a cara à tapa", de confessar minhas fraquezas e externar minhas alegrias naquilo que me dá prazer, de conviver enfim... meu Deus, impossível não lembrar do Epitáfio dos Titãs: "queria ter amado mais... arriscado mais... ter visto o Sol nascer..."

Marina, disse pra ela, você e seu filho já têm o que uma quantidade infindável de famílias ainda não possuem. Vocês têm um ao outro. Vocês podem se ver mutuamente como quem contempla a própria imagem num espelho d'água, através do exercício da compreensão. E, sendo assim, vossas almas estão ligadas por cordões eternos. Pode um objeto não ter sua imagem refletida no espelho na presença da luz? É possível, diante da luz, separar o corpo da própria sombra? Vejo a Luz em vocês! A vida certamente lhes fará passar por túneis "onde só tem o breu", por bêcos escuros e imundos, entretanto, como diz o sábio: "o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã". Depois outra noite, outra manhã... mais uma noite, novo amanhecer... até raiar o Dia perfeito na eternidade.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Estou Cansado


Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço. Conheço as várias passagens da Bíblia que prometem restaurar os trôpegos. Compreendo que o profeta Isaías ensinou que Deus restaura as forças dos que não tem nenhum vigor. Também estou informado de que Jesus dá alívio para os cansados. Por isso, já me preparo para as censuras dos que se escandalizarem com a minha confissão e me considerarem um derrotista.
Contudo, não consigo dissimular: eu me acho exausto.
Não, não me afadiguei com Deus ou com minha vocação. Continuo entusiasmado pelo que faço; amo o meu Deus, bem como minha família e amigos.
Permaneço esperançoso. Minha fadiga nasce de outras fontes.
Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa.
Cansei com os programas de rádio em que os pastores não anunciam mais os conteúdos do evangelho; gastam o tempo alardeando as virtudes de suas próprias instituições. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas.
Canso com a leitura simplista que algumas correntes evangélicas fazem da realidade. Sinto-me triste quando percebo que a injustiça social é vista como uma conspiração satânica, e não como fruto de uma construção social perversa. Não consideram os séculos de preconceitos nem que existe uma economia perversa privilegiando as elites há séculos. Não agüento mais cultos de amarrar demônios ou de desfazer as maldições que pairam sobre o Brasil e o mundo.
Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento "científico" da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças.
Canso com os estereótipos pentecostais. Como é doloroso observá-los: sem uma visitação nova do Espírito Santo, buscam criar ambientes espirituais com gritos e manifestações emocionais. Não há nada mais desolador que um culto pentecostal com uma coreografia preservada, mas sem vitalidade espiritual. Cansei, inclusive, de ouvir piadas contadas pelos próprios pentecostais sobre os dons espirituais.
Cansei de ouvir relatos sobre evangelistas estrangeiros! que vêm ao Brasil para soprar sobre as multidões. Fico abatido com eles porque sei que provocam que as pessoas "caiam sob o poder de Deus" para tirar fotografias ou gravar os acontecimentos e depois levantar fortunas em seus países de origem.
Canso com as perguntas que me fazem sobre a conduta cristã e o legalismo. Recebo todos os dias várias mensagens eletrônicas de gente me perguntando se pode beber vinho, usar "piercing", fazer tatuagem, se tratar com acupuntura etc., etc. A lista é enorme e parece inexaurível. Canso com essa mentalidade pequena, que não sai das questiúnculas, que não concebe um exercício religioso mais nobre; que não pensa em grandes temas. Canso com gente que precisa de cabrestos, que não sabe ser livre e não consegue caminhar com princípios. Acho intolerável conviver com aqueles que se acomodam com uma existência sob o domínio da lei e não do amor.
Canso com os livros evangélicos traduzidos para o português. Não tanto pelas traduções mal feitas, tampouco pelos exemplos tirados do golfe ou do basebol, que nada têm a ver com a nossa realidade. Canso com os pacotes prontos e com o pragmatismo. Já não agüento mais livros com dez leis ou vinte e um passos para qualquer coisa. Não consigo entender como uma igreja tão vibrante como a brasileira precisa copiar os exemplos lá do norte, onde a abundância é tanta que os profetas denunciam o pecado da complacência entre os crentes. Cansei de ter de opinar se concordo ou não com um novo modelo de crescimento de igreja copiado e que vem sendo adotado no Brasil.
Canso com a falta de beleza artística dos evangélicos. Há pouco compareci a um show de música evangélica só para sair arrasado. A musicalidade era medíocre, a poesia sofrível e, pior, percebia-se o interesse comercial por trás do evento. Quão diferente do dia em que me sentei na Sala São Paulo para ouvir a música que Johann Sebastian Bach (1685-1750) compôs sobre os últimos capítulos do Evangelho de São João. Sob a batuta do maestro, subimos o Gólgota. A sala se encheu de um encanto mágico já nos primeiros acordes; fechei os olhos e me senti em um templo. O maestro era um sacerdote e nós, a platéia, uma assembléia de adoradores. Não consegui conter minhas lágrimas nos movimentos dos violinos, dos oboés e das trompas. Aquela beleza não era deste mundo. Envoltos em mistério, transcendíamos a mecânica da vida e nos transportávamos para onde Deus habita. Minhas lágrimas naquele momento também vinham com pesar pelo distanciamento estético da atual cultura evangélica, contente com tão pouca beleza.
Canso de explicar que nem todos os pastores são gananciosos e que as igrejas não existem para enriquecer sua liderança. Cansei de ter de dar satisfações todas as vezes que faço qualquer negócio em nome da igreja.
Tenho de provar que nossa igreja não tem título protestado em cartório, que não é rica, e que vivemos com um orçamento apertado. Não há nada mais desgastante do que ser obrigado a explanar para parentes ou amigos não evangélicos que aquele último escândalo do jornal não representa a grande maioria dos pastores que vivem dignamente.
Canso com as vaidades religiosas. É fatigante observar os líderes que adoram cargos, posições e títulos. Desdenho os conchavos políticos que possibilitam eleições para os altos escalões denominacionais. Cansei com as vaidades acadêmicas e com os mestrados e doutorados que apenas enriquecem os currículos e geram uma soberba tola. Não suporto ouvir que mais um se auto-intitulou apóstolo.
Sei que estou cansado, entretanto, não permitirei que o meu cansaço me torne um cínico. Decidi lutar para não atrofiar o meu coração.
Por isso, opto por não participar de uma máquina religiosa que fabrica ícones. Não brigarei pelos primeiros lugares nas festas solenes patrocinadas por gente importante. Jamais oferecerei meu nome para compor a lista dos preletores de qualquer conferência. Abro mão de querer adornar meu nome com títulos de qualquer espécie. Não desejo ganhar aplausos de auditórios famosos.
Buscarei o convívio dos pequenos grupos, priorizarei fazer minhas refeições com os amigos mais queridos. Meu refúgio será ao lado de pessoas simples, pois quero aprender a valorizar os momentos despretensiosos da vida. Lerei mais poesias para entender a alma humana, mais romances para continuar sonhando e muita boa música para tornar a vida mais bonita. Desejo meditar outras vezes diante do pôr-do-sol para, em silêncio, agradecer a Deus por sua fidelidade. Quero voltar a orar no secreto do meu quarto e a ler as Escrituras como uma carta de amor de meu Pai.
Pode ser que outros estejam tão cansados quanto eu. Se é o seu caso, convido-o então a mudar a sua agenda; romper com as estruturas religiosas que sugam suas energias; voltar ao primeiro amor. Jesus afirmou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma. Ainda há tempo de salvar a nossa.
Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim


Faço côro com o "desabafo" do Pr. Ricardo Gondim. Até então não havia lido nenhum texto que descrevesse tão direta e claramente minhas tristezas em relação a hipocrisia reinante da cultura "evangélica" brasileira de nossos dias... tão distante dos referenciais do Reino de Deus revelados na simpliciadade de Jesus.

domingo, 5 de agosto de 2007

Jardins


Já que foi assim,
naquele jardim Te desagradei.
Fiz-me irreverente, não fiquei contente
em Te obedecer.
Pequei...
Tornei-me escravo de mim mesmo
Servo do enganoso coração
Fugi, fiquei só, sem Ti, Senhor.
Doeu.

Já que foi assim,
em outro jardim eu Te contemplei.
Teu semblante triste, que por mim
insiste em se oferecer.
Morreu.
E perdoou-me totalmente.
Livre do pecado então me fez.
Voltei.
Contigo estou vou assim.

Mas já que é assim,
Tua vida em mim, minha vida é
Caminhar Teus passos
e sonhar Teus planos é o que quero enfim
Viver, lutar, vencer, servir, amar...
nem que seja um pouco só
do muito do Teu grande amor por mim.


Paulo Cézar (Grupo Logos)

Espiritualidade de cima e de baixo (Parte 2), por Anselm Grüm.



Exemplos da Bíblia





A Bíblia nunca nos apresenta como modelos de fé pessoas perfeitas e sem falhas, mas, sim, justamente pessoas que carregam uma grave culpa e que invocaram a Deus do fundo do abismo. Vemos aí Abraão, que no Egito renega sua mulher e aapresenta como sua irmã, a fim de conseguir uma vantagem. Isto faz com que Faraó a tome para seu harém. Deus mesmo precisa intervir para livrar o pai de fé da mentira (Gn 12,10-20). Aí está Moisés, que libertou Israel do Egito. Ele é um assassino. Em um momento de ira, matou um egípcio. Moisés tem que primeiro se confrontar com sua inutilidade, que ele vê refletida na imagem da sarça ardente, para, como um fracassado, entrar a serviço de Deus. Eis, aí Davi, modelo perfeito do rei de Israel e modelo para todos os demais reis. Ele carrega sobre si uma culpa grave quando dorme com Betsabé, a mulher de Urias. Depois de a ter engravidado, ele ordena que o hitita Urias seja deixado sozinho na batalha, para ser morto. Os grandes vultos do Antigo Testamento tiveram que passar pelo fundo do vale para colocar sua esperança unicamente em Deus...

No Novo Testamento, Jesus escolhe Simão Pedro como rochedo e alicerce para sua comunidade. Pedro não compreende Jesus. Pretende demovê-lo de seu caminho para Jerusalém, que o leva à morte certa. Jesus o chama de Satanás e o manda afastar-se (Mt 16,23). Por fim, Pedro nega Jesus depois que ele foi preso. Ainda no caminho para o Monte das Oliveiras, ele havia afirmado solenemente: "Ainda que tenha de morrer contigo, não te negarei" (Mt 26,35). Primeiro, ele precisa sentir que, por si só, não pode oferecer nenhuma garantia, mesmo depois de promessa tão solene. Quando, enfim, negou a Jesus, ele "saiu para fora e chorou amargamente" (Mt 26,75). Os evangelistas não quiseram enfeitar a negação de Pedro. Tudo indica que, para eles, era importante confessarem impiedosamente que Jesus não havia escolhido apóstolos piedosos e confiáveis, mas justamente pessoas pecadoras e fracas. E, não obstante, foi justamente sobre estes homens que Jesus edificou sua Igreja. Foram eles as testemunhas certas para a misericórdia de Deus... Precisamente por sua culpa, Pedro transformou-se em rochedo. Pois, sentiu que não é ele que é o rochedo, mas somente a fé, a que tem que agarrar-se para, na tentação, permanecer fiel a Cristo.

Paulo, como fariseu era um típico representante da espiritualidade de cima. Ele diz a respeito de si mesmo: "No zelo pelo judaísmo ultrapassava muitos dos companheiros de idade da minha nação, mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas" (Gl 1,14). Cultivou os ideais dos fariseus, observou rigorosamente todos os mandamentos e prescrições, para assim cumprir a vontade de Deus. Mas, no caminho de Damasco, ele é derrubado e todo o edifício de sua vida desmorona. Caído por terra, ele se confronta com a espiritualidade de baixo. Torna-se desamparado, impotente. E fica sabendo que Cristo mesmo age sobre ele e o transforma. Sua mensagem de justificação só pela fé é um testemunho desta experiência. Ela mostra que não podemos chegar a Deus através da virtude e da ascese (exercícios espirituais), mas somente reconhecendo a própria fraqueza. Só então é que adquirimos um sentido para o que a graça realmente é. Mesmo após a coversão, Paulo não é uma pessoa plenamente curada e transformada. Ele sofre de uma doença que manifestamente o humilha. Afirma a respeito e si próprio: Para que as grandezas das revelações não me levasse ao orgulho, foi me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás que me esbofeteia e me livra do perigo da vaidade" (2Cor 12,7). A doença não impede que Paulo mesmo assim anuncie a Boa-Nova. Paulo gloria-se precisamente nas suas fraquezas... a experiência de sua enfermidade, que manifestamente o incomoda, deixa-o aberto para a graça de eus, que é a única coisa que importa. Melhor do que qualquer outro, ele anuncia a redenção libertadora em Jesus Cristo. Por isso, Deus não o livrou da doença. Pelo contrário, deu-lhe como resposta: "Basta a minha graça, porque é na fraqueza que a força chega a perfeição" (2Cor 12,9). força de Deus atua tanto mais intensamente quanto mais fraca é a nossa própria força... por iso Paulo aceita sua impotência e sua fraqueza. "Pois, quando me sinto fraco, então é que sou forte" (2Cor 12,10).

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Hoje... agora...


Há dias em que o mundo me parece tão cruelmente grande,
tão assustadoramente triste e casual.
O coração fervia de tristeza há pouco tempo.
Hoje, só bate...
sente uma espécie de banzo
saudade do que nunca foi,
do que nunca viveu,
mas agora, só por hoje talvez, ele o faz sem chorar.

Estou no mar numa noite quente.
Contando abobalhado as estrelas...
cantando as ondas com melancolia,
mas sem chorar.
Mergulhado nas águas frias da solidão.
A deriva em sua calmaria,
mas sem chorar.

Houve tempo em que eu acreditava nas pessoas.
Hoje, não mais.
Não penso em ninguém agora,
só no que vivi.
Andanças...
Só nas emoções.
No sofrer e no sorrir
que esses meus semelhantes me fizeram sentir.
Lembranças...

Parece que tudo foi muito ou pouco demais pra mim.
Quem dera tivesse sido bom ou ruim...
É como se tudo que passei
não tivesse passado por mim.
Minha cabeça deu nó agora.
Hoje, não consigo chorar.
Agora só Deus me consola.
Hoje só Ele me pode falar.
Mas não ouço nada,
só o som efervescente da espuma d'água.

Na areia, me deito sozinho agora.
Queria sonhar,
ou acordar desse sonho, sei lá...
queria o meu lugar.
Agora, adormeço sob a luz de Deus,
da Lua: Seu tranquilo e marejado olhar.
Mas sem chorar,
pois ,hoje, meus pesares, minhas dores,
minhas lágrimas... são o mar.
Ao som de "Coqueiros" e "Bicho de Sete Cabeças" do Geraldo Azevedo e, ainda assim, sem chorar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O Senhor das Estórias 1 - A tranquilidade das ovelhas


A noite estava escura, céu sem estrelas. De vez em quando ouvia-se o uivo de um lobo bem longe, misturado com o barulho do vento. As crianças reunidas na tenda do Mestre Benjamin estavam com medo. Mestre Benjamin sentiu o medo nos seus olhos. Foi então que uma delas perguntou:

"Mestre Benjamin, há um jeito de não ter medo? Medo é tão ruim."

Mestre Benjamin respondeu:

"Há sim..." E ficou quieto. Veio então a outra pergunta:

"E qual é esse jeito?"

"É muito fácil. É só pensar como as ovelhas pensam..."

"Mas como é que vou saber o que as ovelhas estão pensando?"

Mestre Benjamin respondeu:

"Quando, durante a noite, as ovelhas estão deitadas na pastagem, os lobos estão à espreita. E eles uivam. As ovelhas têm medo. Mas aí, misturado ao uivo dos lobos, elas ouvem a música mansa de uma flauta. É o pastor que cuida delas e não dorme nunca. Ouvindo a música da flauta, elas pensam:

Há um pastor que me protege.

Ele me leva aos lugares de grama verde

e sabe onde estão as fontes de águas límpidas.

Uma brisa fresca refresca a minha alma.

Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas.

Mesmo quando tenho de passar pelo vale escuro como a morte

eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranquilizam.

Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer.

Passa óleo perfumado na minha cabeça para curar minhas feridas

e me dá água fresca para sarar o meu cansaço.

Com ele não terei medo, eternamente...

(Salmo 23, paráfrase)

Mestre Benjamin parou de falar. Os olhos de todas as crianças estavam nele. Foi então que uma delas levantou a mão e perguntou:

"E os lobos? Eles vão embora? Eles morrem?"

"Os lobos continuam a uivar. E continuam a ser perigosos. O pastor não consegue espantar todos eles. E por vezes eles atacam e matam. Mas as ovelhas, ouvindo a música da flauta do pastor dormem sem medo, não porque não haja mais perigo, mas a despeito do perigo. Não há um jeito de acabar com o perigo. Mas há um jeito de acabar com o medo. Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo..."

As crianças voltaram para suas tendas dormiram sem medo, pensando os pensamentos das ovelhas... De vez em quando, lá fora, ouvia-se o uivo de um lobo faminto. Desde então, tornou-se costume contar ovelhinhas para dormir.


Rubem Alves